Teoria Literária
O Limerique (ou Limerick) é uma modalidade de poema minimalista focada no humor por meio do absurdo das coisas. É um atestado de que a poesia não precisa ser solene para ser genial. Conquistou o mundo por sua musicalidade latente e pela capacidade de transformar o "nonsense" em alta literatura.
Embora existam registros de poemas com métrica semelhante na Idade Média, sua popularização iniciou-se na Inglaterra do século XIX. O nome provavelmente deriva da cidade ou condado de Limerick, na Irlanda, devido a um refrão popular que dizia: "Will you come up to Limerick?".
O grande mestre do limerique moderno foi Edward Lear (1812–1888). Ele usava o formato para criar situações absurdas e personagens excêntricos, fugindo da rigidez vitoriana da época. Sua obra "A Book of Nonsense" (1846) é o marco fundacional do gênero.
A Difusão do Limerique no Brasil:
O Brasil acolheu o gênero através de mentes brilhantes que adaptaram o ritmo anglo-saxão à nossa língua:
Joaquim de Sousândrade (1833–1902): O pioneiro "acidental". Em sua estada nos EUA, capturou o ritmo das formas curtas inglesas e as inseriu em sua obra épica O Guesa, usando a estrutura para críticas sociais ácidas.
Tatiana Belinky (1919–2013): A "Grande Dama do Limerique" no Brasil. Russa de nascimento, trouxe a influência do nonsense europeu e publicou obras seminais como "Limeriques" (1987) e "Limeriques da Cocanha".
Clarice Lispector (1920–1977): A mestre da introspecção também explorou o lado lúdico. Em seus escritos infantis e anotações, Clarice utilizava o espírito do absurdo para quebrar a lógica formal, dialogando com o imaginário infantil.
Vivina de Assis Viana: Grande parceira de Belinky, ajudou a sedimentar a técnica na literatura infantojuvenil brasileira.
Guilherme de Almeida: O modernista utilizou o limerique (ao lado do Haicai) como exercício de síntese poética.
Millôr Fernandes: O mestre do trocadilho e da sátira política, que elevou o "poeteto" de cinco versos ao status de crônica social.
O Limerique é rigorosamente uma quintilha (estrofe de cinco versos).
Existem variações na contagem, mas as premissas básicas são:
Versos 1, 2 e 5: Longos (8 ou 9 sílabas poéticas).
Versos 3 e 4: Curtos (5 ou 6 sílabas poéticas).
A Norma Chagoso: Para fins de padronização e melhor cadência, este autor defende e prima pela fixação em 9 sílabas para os versos 1, 2 e 5, e 6 sílabas para os versos 3 e 4.
Rima: Obrigatória no esquema AABBA.
Ritmo: Os versos maiores devem ter três sílabas tônicas e os menores apenas duas, criando uma cadência saltitante que convida ao acompanhamento físico (palmas ou batida de pés).
O limerique clássico segue uma progressão padrão:
Apresentação: Introduz o protagonista e, geralmente, sua origem geográfica.
Desenvolvimento: Ocorrência do fato estranho ou engraçado.
Conclusão: Um desfecho absurdo ou um trocadilho final.
Joaquim de Sousândrade (Sátira Social)
A bolsa é o grande atoleiro,
Do povo, no mundo inteiro;
O jogo lá corre,
E quem não socorre,
Perde tudo, até o dinheiro.
Tatiana Belinky (Estrutura Clássica)
Uma jovem de nome Zulmira,
Tocava uma velha lira.
O som era tão vão,
Que até o pavão,
Chorava de tanta mentira.
Clarice Lispector (Nonsense Lúdico)
Havia uma barata na cozinha,
Que se achava uma linda rainha.
Mas veio o chinelo,
Quebrou-lhe o castelo,
E ela morreu coitadinha.
Millôr Fernandes (Geográfico)
Havia um rapaz de Curitiba
Que saltou de uma grande atiba.
Ao chegar lá embaixo
Notou, o escacho,
Que não tinha nada atiba.
Chico Chagoso (Regionalista)
No meio da roça de algodão
Se perdiam Maria e João
Todo mundo sabia
O que acontecia
Era uma tremenda enganação
O Impossível é a regra: Não busque lógica; busque o riso.
Musicalidade: Se você não sentir vontade de estalar os dedos ao ler, a métrica precisa de ajuste.
Simplicidade: O limerique é uma pílula de inteligência rápida.
Referências:
Paper by Dr Matthew Potter, Limerick Museum and Archives Acesso em 05/10/2020
World Wide Words - Limerick Acesso em 05/10/2020.
Limerique - Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz, Acesso em 05/10/2020
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