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Marina: Um Tributo à Primeira Mestra

 

Marina Venâncio: A Mestra que Constrói Vidas

Esta crônica é dedicada a Marina Venâncio,

minha primeira professora, cuja importância

em minha formação justificou homenagens

anteriores ( 17/10/2011, 15/10/2018 e 19/12/2019).

Hoje, no entanto, o motivo é singular.

Republico o texto original, que agora

ganha  um novo e doloroso significado.


 

Parte I: Aos Mestres, com Profundo Carinho

 

O título, sutilmente emprestado, é proposital. Ele evoca a memória de Sidney Poitier, o mestre que ofereceu seu próprio esforço para transformar a vida de jovens desorientados, tal como nos remete às fases mais formativas de nossa jornada.

O instinto de seguir e de querer absorver o melhor daqueles que nos guiam é inerente à nossa breve passagem pela vida. Mesmo quando atingimos a ilusão da independência, somos, na verdade, um mosaico dos ensinamentos e dos cuidados que recebemos, especialmente nos primeiros anos. Se tentássemos listar todos os que nos moldaram, seríamos injustos. Mas os mestres, inegavelmente, ocupam um lugar de honra nessa construção.

Nesta data festiva — e estendo-a a todos os que abraçam o magistério —, presto minha homenagem à professora que foi um marco insubstituível. Ela não foi apenas a primeira; foi o meu grande divisor de águas.

Coube a ela, ainda jovem, introduzir-me a um mundo novo sem gerar atrito com os valores que eu trazia de casa. Não houve choque cultural. Sua sensibilidade refinada harmonizou o novo e o tradicional; tudo o que meus pais haviam me ensinado foi preservado, enquanto ideias novas, por vezes antagônicas, foram agregadas de forma suave e prazerosa. Foi com ela que aprendi que conceitos podiam coexistir sem, necessariamente, se chocarem. O aprendizado foi tão natural que a clareza sobre ele só me veio, em toda a sua profundidade, muito tempo depois.

 

A Palmatória Simbólica e o Cartão Inesquecível

 

A famigerada palmatória, tão presente na história escolar da época, de fato existia na sala de aula. O leitor poderia pensar: "Esta era a professora modelo?" Calma! Até nisso ela demonstrou sabedoria. A palmatória era um objeto simbólico, usado apenas com "glamour" nas brincadeiras ou sabatinas. O perdedor recebia um "bolo" do vencedor, mas a dor era apenas a da derrota, pois a professora exigia que o toque fosse simbólico, sem jamais causar sofrimento físico.

Em 1968, numa festa de Dia das Mães, o coro da canção de Carlos Galhardo fez com que dois irmãos, órfãos de mãe, caíssem em prantos. A delicadeza com que Marina nos acalentou e nos fez compartilhar a dor deles transformou aquele momento doloroso em algo edificante. Sua habilidade nos apresentou uma das mais duras facetas da vida real, ao mesmo tempo em que nos dava ferramentas emocionais para lidar com ela. Uma semente que germinou para o nosso futuro.

Naquele mesmo ano, recebi dela meu primeiro cartão de Natal. Meus pais, de vida simples, não davam grande significado a datas festivas. Aquele cartão foi um poderoso paradigma quebrado. Seu significado foi tão imenso que o guardei com tanto carinho que, ironicamente, o perdi de vista por décadas. Anos se passaram, vieram namoradas, empregos, família e netos, e o cartão foi dado como perdido para sempre.

Em 2003, em meio a mais uma mudança, ele reapareceu como por mágica. Lindo, amarelado, e muito mais altivo do que antes. Digitalizei-o e enviei-o por e-mail à querida professora, na esperança de emocioná-la em seu dia. Contudo, a homenagem jamais chegou.

Fui surpreendido, no ano seguinte, com a visita da própria Marina, "em carne e osso", no meu local de trabalho. Fiquei tão emocionado que sequer consegui mencionar o bendito cartão. Ela regressou à sua cidade, e desde então, não nos vimos mais.

À professora Marina, um beijo no coração.

Este é o singelo, mas profundo, tributo que faço hoje àqueles que entregam o melhor de si para moldar as vidas de seus alunos. Parabéns a todos os mestres!


 

Parte II: O Reencontro e a Jornada Interrompida

 

O texto original foi encerrado em tom de saudade e esperança. Aqui se inicia a continuação.

Em maio passado, a professora Marina visitou Porto Velho, sua cidade natal. Por uma providência superior, encontrei sua irmã, uma amiga que vejo raramente. Ao saber da visita, esforcei-me para reencontrá-la.

O encontro foi emocionante. Pude ler-lhe, pessoalmente, a crônica de homenagem que acabara de reproduzir. Conversamos por cerca de duas horas. Marina estava radiante, com o mesmo brilho da "garota" de dezoito anos que me ensinara o "bê-a-bá". Fiquei extasiado por sua presença.

Ela precisou partir, mas não antes de trocarmos WhatsApp's e promessas de comunicação constante. Assim que chegou à sua cidade, postou uma mensagem sobre sua satisfação em ter lido e relido o texto, cujo "conteúdo me afaga o coração."

Desde aquele dia, mantivemos a comunicação, trocando fotos de filhos e netos e falando sobre projetos. A frequência das conversas, como é natural, diminuiu, mas sua sapiência e espiritualidade tornaram-se uma referência. Mencionei-lhe um livro de Arnold Toynbee, pelo qual ela demonstrou interesse. Cheguei a iniciar a compra de um exemplar em um sebo virtual, com entrega em Fortaleza, mas desconfiei da exigência de CPF do recebedor e não finalizei.

No seu aniversário deste ano, postei o famoso trecho de Bertold Brecht, em espanhol, como uma declaração de admiração: "Hay personas que luchan un día e son buenas... luchan a lo largo de sus vidas, estas son imprescindibles."

No Dia dos Professores, hesitei em republicar o texto anterior, receando a repetição. Decidi que, numa futura viagem ao Nordeste, daria um jeito de presenteá-la pessoalmente. Ainda em outubro, ela compartilhou um texto significativo, "A realidade de hoje", que começava com a frase tocante: "Casas grandes, pequenas famílias..."

Eu estava imensamente feliz com aquela nova "velha" amizade. Mas, mais uma vez, meu desleixo fez com que eu só abrisse a mensagem em dezembro, mais de quarenta dias depois. "Com razão, ela não respondeu", pensei, resignado.


 

Parte III: A Plenitude

 

Ontem, resolvi quebrar o silêncio: "Bom dia. Bom domingo. Como está você?"

Hoje, ao abrir o celular, deparei-me com a resposta que chegou ontem: "Olá, aqui é o filho dela. Ela faleceu ontem, dia 07."

Sinto uma tristeza profunda, de verdade.

Fiquei devendo a visita e o livro...

Marina, saiba que agora você transcendeu para um plano eterno em meu coração. Se antes você era imprescindível para a minha jornada, agora você é plena no sentido de sua essência.

 9/12/2019


Ilustração:

Foto do Cartão de Natal oferecido à época (dezembro de 1968), a lembrança mais valiosa de uma mestra inesquecível.

Versões Anteriores:
À mestra Com Carinho (17/10/2011)

Aos Mestres, com Carinho (15/10/2018)

Marina (09/12/2019)

 

 

Chico Chagoso
Enviado por Chico Chagoso em 19/10/2025
Alterado em 19/10/2025
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