Um Remédio do Futuro, por um Médico do Passado
Conto
Na pequena e silenciosa estação de Rio Calmo, o grande relógio de parede do saguão fixava três horas e vinte minutos, embora o sol estivesse a pino. Seus ponteiros mantinham-se inertes, como que estagnando o tempo. Tudo o mais, ao redor, era tranquilo e previsível e a única anomalia era o velho relógio, quebrado há anos. Eis o retrato da estação de abastecimento de lenha e água para as locomotivas da Ferrovia Madeira-Mamoré, na longínqua década de 1940.
O apito do cargueiro das onze e meia cortou a quietude da estação. Sem alvoroço: apenas Mr. Sleeper, o vigia-zelador sonolento, e Dona Zefa Princess, dona da lanchonete. Aquele trem, da quinta, nunca parava. Dona Zefa, focada em suas tapiocas e mingaus para o trem das duas, ignorava o som. O apito e o rangido dos vagões eram apenas ruído de fundo na monótona rotina de Rio Calmo. Mas a experiência de anos na ferrovia afinou o ouvido de Dona Zefa. O som da composição que se aproximava mudou: era um barulho de freios sendo acionados com relutância. O cargueiro estava diminuindo a marcha.
— Mr. Sleeper! O trem vai parar! — gritou dona Zefa, sem se virar, para o vigia que tentava a sesta numa mesa isolada.
— Mas... não são duas horas ainda! — retrucou Sleeper, erguendo-se, "visivelmente confuso" por ter o sono interrompido. Olhou por cima, por hábito, para o relógio quebrado. — Por esse aí, oh! Três e vinte! Já passou da hora! — resmungou, com um olhar comprido.
Dona Zefa estava certa. O trem parou. Mas foi uma parada urgente, insólita. O chefe da composição desceu apressado, acomodando um velho ferroviário ardendo em febre numa poltrona esquecida.
— Daqui a pouco passa a litorina¹ e leva Mr. Fakeness para Porto Velho. Ninguém sabe o que ele tem — Sentenciou o Chefe com cara de quem sabia, sim, apitando em seguida a partida apressada. Se livrava do "mistério" e do doente.
A litorina, porém, estava avariada a poucos quilômetros. A turma da manutenção de trilhos avisou, passando em sentido oposto sobre uma velha cegonha², sugerindo levarem o doente para Guajará-Mirim no trem de passageiros. A ideia foi descartada. Na confusão, o 'fuzuê' fez com que esquecessem o protagonista da berlinda: James Fakeness, Mr. Fakeness, o doente.
— Mr. Fakeness sumiu! — Gritou dona Zefa, interrompendo o alvoroço. — Mas não deve ter ido longe, pois deixou o relógio de algibeira na poltrona.
Tinha sumido. Desapareceu misteriosamente. O seu paradeiro tornou-se o único assunto da ferrovia. A administração empenhou-se na busca três dias após o ocorrido. A notícia correu a Estrada de Ferro, de Porto Velho a Guajará-Mirim. A quietude de Rio Calmo havia acabado.
Na madrugada do quarto dia, uma terça-feira, 19 de setembro de 1944, Mr. Fakeness reapareceu na mesma Estação de Rio Calmo, para pegar de volta seu relógio. Havia pouca gente, mas logo chegou o trem de Guajará-Mirim, e a tripulação inteira se aglomerou, querendo saber o que havia ocorrido.
— Pois bem, gente! — Começou Mr. Fakeness. — No meio daquela confusão, um índio Karipuna me levou para a sua aldeia. No caminho, ele me fez mastigar uma raiz, e a minha febre aliviou na hora. O pajé da aldeia é um americano chamado Carl Lovelace. Ele dizia ser médico. (Esse nome, não me é estranho). Ele me deu Aralen, um remédio que só ele tem. Fiquei em repouso absoluto por três dias. Depois, o mesmo índio me trouxe de volta. Estou totalmente curado.
A história só ganhou contornos especiais no dia seguinte, quando Mr. Fakeness foi chamado ao gabinete do diretor da Ferrovia. Ele repetiu a narrativa com mais detalhes, ante a incredulidade do administrador.
— Doutor, é a pura verdade. Sem aumentar ou diminuir — concluiu.
— Pois bem, Mr. Fakeness: Carl Lovelace foi um médico que esteve por aqui até 1913. Voltou para os Estados Unidos. Já deve ter mais de sessenta anos, se não for falecido... — O diretor folheou alguns papéis. — Esse remédio, Aralen, consultei alguns médicos e ninguém sabe do que se trata. O tal 'Doutor' lhe explicou algo sobre ele? O senhor, por acaso, tem uma amostra?
— Não deixou trazer, não senhor. Disse que é o 'remédio do futuro'... Mas disse também que era um tal de 'cloro-quinino'.
— Cloroquina?
— Isso! Pronto! O senhor conhece.
— Não, ainda é uma pesquisa científica. Vi numa revista americana.
O medicamento em questão realmente estava em fase experimental, sem liberação para uso humano nem nos Estados Unidos. Fizeram, então, um pacto de silêncio sobre o assunto para que a rotina voltasse a reinar na ferrovia, sobretudo em Rio Calmo. E até quase deu certo. Quase.
Poucos dias depois, um jornal local trazia a manchete: "Morre no Texas Carl Lovelace". A calmaria de Rio Calmo e da ferrovia acabou de vez. "O Médico Carl Lovelace morreu no dia 14 deste mês, aos 68 anos e alguns meses de idade, deixando uma linda história de vida...", prosseguia a matéria. Um exemplar do jornal 'bolou' pela estação até parar nas mãos de Mr. Sleeper.
— Dona Zefa — Gritou o vigia, apavorado, com o jornal estendido. — Foi na quinta!
— O quê foi na quinta, homem de Deus!
— A morte do Doutor Lovelace! No mesmo dia em que Mr. Fakeness desapareceu, mulher!
— Mesmo?... Nossa Senhora! Que coisa mais misteriosa, Mr. Sleeper!
— Dona Zefa, a senhora não vai acreditar, mas tem mais uma coincidência. O Doutor Lovelace morreu no dia 14, um dia depois do aniversário de criação do Território. Exatamente um ano e um dia da criação. Deve ter morrido feliz, com a nossa emancipação... — ficou balbuciando — Um ano e um dia... 13 de setembro... 14 de setembro... 43... 44... a year and a day...
Alguns anos depois…
— Aralen! — Grita Mr. Sleeper, olhando por cima dos óculos e do jornal que lia na velha mesa do canto, como se buscasse o fantasma de dona Zefa.
— Quem é essa? Está sonhando, Mr. Sleeper? — Resmungou Émile, filha de dona Zefa e nova administradora do "Restaurante".
— É o novo remédio para impaludismo que inventaram agora! Diz aqui que é a "cloroquina"
— Sim, mas... por que o espanto?
— Ele ainda não tinha sido inventado quando foi receitado para o Mr. Fakeness pelo Doutor Lovelace, que "já tinha morrido"... No dia em que Mr. Fakeness desapareceu, ele estava morrendo a milhares de quilômetros de distância, mas deu o 'remédio do futuro'!
— Que confusão, Mr. Sleeper! Minha cabeça travou, igual nosso relógio ali.
— Se dona Zefa fosse viva... ou Mr. Fakeness... É muita emoção para uma pessoa só, Émile.
— Durma, Mr. Sleeper, durma. O trem de amanhã precisa de silêncio para chegar.
Premonição?
Este conto que fala, entre outras coisas, sobre o avanço da cloroquina, no tratamento da malária, foi concluído originalmente em 2014, quando estaria há 70 anos de sua fictícia ocorrência. Ficou no "prelo" aguardando confirmação de dados reais sobre o médico, e o medicamento, até 2016, quando então foi publicado aqui, no RL, com o mesmo título Mr. Fakeness. Posteriormente recebeu Menção Honrosa na coletânea internacional "Sem Fronteiras pelo Mundo, Vol. 4", publicada pela editora Rede Sem Fronteiras, em 2019. Tudo isso, muito antes da polêmica em torno do medicamento durante a pandemia do Covid 19. Premonição?
*¹) Litorina é um antigo veículo de transporte ferroviário, movido por motor a diesel.* - Veja uma aqui!
*²) Cegonha é um antigo veículo de transporte ferroviário, movido pela força de seus passageiros.* - Veja uma aqui!
O Territorial Federal do Guaporé (juntamente com outros) foi criado em 13/09/1943. Em 1956 passa ser chamado de T.F. de Rondônia, Hoje Estado de mesmo nome.
O Dr. Carl Lovelace, ajudou, como médico, na construção da EFMM. no início do seculo 20 e retornou ao seu país, em 1913. Faleceu no dia 14 de setembro de 1944.
A história totalmente ficção assim como as demais personagens.