Recanto do Chagoso
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Uma Carona Inusitada

 

O chuvisco fino mal começara, mas Sagax, de olhar focado e ombros curvados, já acelerava o passo em sua "pequena carreira". Foi então que ouviu a voz familiar e urgente:

— Espera! Sagax! Pode me dar uma carona?

Parou. Era Aupari, seu colega, recém conhecido, que tentava acompanhar no mesmo passo, à pouca distância. Sagax anuiu com a cabeça, já sentindo o abafado do asfalto quente sob o chovisco.

— Claro, amigo! Será um prazer. Onde vamos?

— Vou ali na clínica médica, buscar minha esposa.

— Sim, vamos! Meu carro está bem ali — disse Sagax, apontando para seu fiel e valente, Ford Escort.

— Não! Não, não, não! Vamos no meu! — retorquiu Aupari apontando para um Monza GL 2.0 de pintura brilhante, e exibiu a chave do carro como um troféu.

Sagax franziu a testa, visivelmente confuso.

— Como assim... carona? No seu próprio carro? Desculpe, Aupari, mas não estou entendendo nada.

— É simples: eu não dirijo! Só a Anivla, minha mulher, dirige! Você me leva lá na clínica, e depois voltamos para te deixar aqui. 

 

E assim, ainda digerindo a lógica da coisa Sagax assumiu o volante do magnífico GM e lá se foram, deixando o velho Escort no estacionamento.

Na volta, Aupari ocupava o banco do passageiro com a naturalidade de um rei em seu trono, enquanto a esposa dirigia com maestria. Sagax, agora rebaixado ao banco de trás, travava uma batalha interna para não ceder à curiosidade.

O silêncio foi quebrado por Anivla, que lançou um olhar pelo retrovisor.

— Aupari não contou por que ele não dirige, não é, Sagax? Se você não perguntar, ele não vai responder. Ele adora esse teatro — disse ela com uma leve ironia.

— Já fiz pior — confessou Aupari.

—  É verdade, Sagax.  Certa ocasião, em uma situação parecida ele foi pro banco de trás e quando viu um amigo na rua, pediu pra eu parar. Daí, chamou o amigo e falou pra ele: "Veja aqui! minha motorista e meu segurança particular...

Sagax, ainda que muito bem a vontade, continuava silente até que o amigo mudou o rumo da conversa.

— É o seguinte, meu amigo. Minha amada esposa, aqui, preparou uma belíssima caldeirada de tambaqui que nos espera. Se você está realmente interessado na curiosidade, nos acompanhe. Passamos ali para pegar umas cervejas, depois passamos lá onde está seu carro e você nos segue. Lá em casa você mata essa charada de uma vez por todas.

Não havia o que contestar. A caldeirada de tambaqui era um argumento forte demais.

Na casa aconchegante, depois de saborearem a deliciosa iguaria, sorverem algumas tulipas de cerveja gelada e falarem sobre trivialidades, o ambiente ficou mais íntimo. Do nada, como se acionasse um script ensaiado, Aupari começou a sua confissão.

— Pois bem. Eu entrei na autoescola, fiz tudo certo. Tirei dez em todas as provas teóricas. Aí fui para a primeira aula prática. Estava tudo, eu juro, muito bem aprendido. Freio, acelerador, embreagem, câmbio... A teoria estava na ponta da língua.

Ele fez uma pausa dramática.

— O instrutor me passou a direção em uma rua bem calma e quase sem movimento. E de repente, no meio da pista, um ciclista parado. Não havia mais ninguém por perto, só o instrutor, eu e o bendito desavisado. Parei o carro e perguntei ao instrutor: "O que eu faço agora?". — serviu mais cerveja, bebeu um bom gole e se dirigiu ao banheiro, deixando Sagax em suspense. 

Ao seu retorno, Sagax, impaciente, perguntou:

— E aí, a aula? Como continuou?

—  Pois bem... daí, ele respondeu, o instrutor: "Dá um toque leve na buzina, Aupari." Seguindo sua orientação, eu dei um leve toque na buzina... e ai,  nada. "Dá um toque mais longo!"... nada de novo. "Buzina forte, mesmo! Tira esse sujeito do meio!" —  agora já compenetrado, revivendo o trauma.

— Para com drama conta logo — Interviu a esposa.

— Aí, meu amigo, o ciclista olhou para mim... — Aupari se inclinou na mesa, baixando a voz para o máximo efeito — olhou pra mim  e gritou: "Passa por cima!"

— Não acredito que você! Não! Você...? —gaguejou Sagax

— Acelerei. E só não passei por cima dele porque ele foi esperto e pulou para a calçada, mas a coitada da magrela... Ela virou sucata. Aí, meu amigo, eu parei o carro, olhei para o instrutor e declarei em auto e bom tom: "Curso encerrado!". E nunca mais sequer peguei num volante."

Anivla balançou a cabeça rindo baixinho e complementou a meia voz:

— Isso já faz uns quinze anos. Desde então, ele prefere andar de ônibus, pegar caronas, me usar como motorista particular, ou mesmo pegar uma carona no próprio carro, como fez hoje... 

Sagax, diante da revelação bizarra, não pôde evitar o sorriso. O mistério havia sido desvendado. E ele, de quebra, havia jantado a melhor caldeirada de tambaqui da sua vida.

— Por questão de lógica e precaução... também deixei de andar de bicicleta. — Foi a cereja que faltava.

Quer dizer quase o foi: Pois na TV passava uma reportagem sobre famosos que não sabiam dirigir automóveis. Aupari chamou a atenção: primeiro apontou pra TV, depois apontou para cima enquanto abaixava a cabeça, em uma expressa e implícita mensagem de "prestem atenção!"

Assim terminou o encontro naquela longínqua quarta-feira de março de 1995

 

Baseado em fato.

 


Ilustração:
Imagem criada com ajuda do Gemini.

 

Música de Fundo:
Estilo Huapango (folclore mexicano),

Melodia Criada com ajuda do Suno.

 

Chico Chagoso
Enviado por Chico Chagoso em 27/12/2025
Alterado em 02/01/2026
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