Recanto do Chagoso
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Não Sendo

O Voo, Parmênides e a Coivara¹

Ensaio

 

     Ainda em tenra idade, enquanto brincava nos arredores de casa — uma pequena propriedade rural onde meu pai tentava se estabelecer como agricultor —, ocorreu um fato que marcou para sempre o meu modo de pensar.

     Acredito que, para se ter a noção exata de uma proposição, ou ao menos uma definição mais nítida, é preciso conhecer o seu oposto. Para que se tenha clareza da sombra, é necessária a consciência da luz (e esse trocadilho, embora acidental, ilumina bem a questão).

     Segundo a filosofia ocidental, fincada nos conceitos gregos, o entendimento do "ser" — abrangendo existência, identidade e lógica — iniciou-se com Parmênides. Antes dele, parecia não haver essa delimitação clara; no próprio vocabulário grego arcaico, faltava uma palavra específica para definir a existência em abstrato. O "ser" era, mas não se explicava.

     Pois bem. O que Parmênides levou eras para conceber, eu, embora não o concebendo em absoluto,  vivenciei em um intervalo de não mais que cinco segundos, numa tarde de raios de sol dourados, lavados pela chuva forte que caíra mais cedo. Eu brincava com meu irmão imediatamente mais novo entre as coivaras¹ e os clarões da pós-queimada. Semeávamos arroz, milho e outras sementes; cavucava aqui, enterrava uma semente ali, quebrava um galho acolá... o tempo se consumia na terra. Até que, num ímpeto imaturo, cutuquei um "buraco de cobra", como chamávamos aquelas covas redondas e profundas.

     Para meu desespero e colapso imediato, saltou da cova um ser que me pareceu terrível, cujo único intento era me devorar. Saiu com tamanho impulso que parecia voar. Vindo diretamente em minha direção, não houve ângulo para reconhecê-lo, nem tempo para o medo racional. Se o bicho ganhou velocidade de avião, por ato reflexo, eu ganhei a de um foguete. Em segundos, eu estava a cinquenta metros dali, protegido entre as pernas de minha mãe.

     Raízes expostas, troncos caídos, tocos pontiagudos... até hoje não sei como atravessei tantos obstáculos em tão pouco tempo. Mas o que lembro com nitidez é o que se passou (ou o que cessou) em minha mente naquela fração de segundo: enquanto corria, a sensação era de que eu estava voando. E, nesse voo, coloquei em xeque minha própria existência. Pela primeira vez, fiz-me a pergunta fatal: "Será que eu existo? Ou sou apenas um fruto da minha mente?" Antes que o portal da dúvida se fechasse, tive a certeza absoluta: eu existia. Eu era. Eu estava.

     Muitos anos depois, quando li Parmênides afirmando que "o ser é", perguntei-lhe mentalmente o que aquilo tinha a ver com o meu buraco de cobra, que naquela altura, sabia ser apenas uma toca de calango.

     O amigo que teve a coragem de chegar até aqui — pela qual agradeço imensamente — pode ficar tranquilo: eu não sou louco o suficiente (ainda) para ouvir a resposta do mestre grego. Mas que ele me respondeu naquele voo sobre os tocos, ah, isso respondeu.

 

 

06/01/2009

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Fundo Musical:

Não Sendo Sou - Poema Munduri musicado com ajuda do Suno

Glossário:
Coivara: Prática agrícola tradicional que consiste em reunir galhos, raízes e restos de vegetação que não foram totalmente consumidos pelo fogo inicial da queimada, formando montes para uma nova queima e limpeza do terreno para o plantio.

Calango:Ameiva ou Tropidurus, um lagarto ágil de coloração esverdeada ou acastanhada que habita áreas de transição e floresta aberta.

 

Chico Chagoso
Enviado por Chico Chagoso em 21/02/2026
Alterado em 28/02/2026
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