Conto por Chico Chagoso e JCMarini
Já fazia mais de uma hora que aquele senhorzinho sexagenário estava postado na posição oficial do caboclo amazônida – acocorado com as palmas dos pés coladas à enorme pedra, desafiando as leis da circulação sanguínea. Seu olhar fixo no movimento das águas parecia estar lendo o horóscopo da semana naquelas corredeiras. Era a famosa cachoeira de Teotônio, hoje uma lenda submersa, e ele estava lá, com uma frouxidão zen, segurando uma linha de nylon de calibre que parecia feita para puxar um jipe. A isca? Ninguém sabia.
À pouca distância, Zé Alves e Chico Silva – a dupla dinâmica da pesca esportiva (ou pelo menos é o que eles achavam) – vibravam a cada fisgada, tratando a caixa de isopor já recheada com mais de trinta peixes como se fosse um troféu de ouro maciço, ainda que mesmo aquela quantidade sequer completasse um quinto da capacidade do vasilhame, pela pequenez dos peixes. A ainda assim, se sentiam os reis do Madeira.
Na hora de ir, Zé, com aquela superioridade típica do pescador de sucesso, olhou para o velho e sentiu um misto de pena e dever cívico:
— Coitado, tá no dia de panema total — cochichou Zé para Chico. — Vamos dar uns peixes para ele não ir de mãos abanando.
Zé foi lá, tossiu para chamar a atenção do ancião, cujo ouvido devia estar entupido pelo rugido da cachoeira. O velho, sem entender nada, respondeu:
— Já estão indo? Tá bom, até mais! — e olhou a caixa com ares de quem avalia a poupança do vizinho. — Só pegaram isso? Coitados. Esperem!
Nesse momento, o velho tirou de suas tralhas uma tarrafa que parecia a rede de um gladiador.
Somente aí a ficha caiu, e a "lição" começou, atingindo Zé e Chico com a força de um jato d'água: aquela linha de nylon era só um disfarce, um álibi contemplativo. O velho não estava pescando; estava tirando férias pagas pela natureza, observando o sumidouro (o ponto da cachoeira onde, diziam, quem caía sumia para sempre) e apreciando o pôr do sol do Madeira — o mais belo, claro, para quem não tinha que se preocupar em fisgar um peixe minúsculo. Quando a família precisava de comida, ele simplesmente jogava a tarrafa e o rio entregava o estoque da semana. A paz, para o velho, era a melhor isca.
Mas a lição não parou na filosofia. O velho, ainda balbuciando "Coitados... coitados", pediu aos rapazes que se afastassem. Com a magia de quem lança um tapete de seda na água, ele abriu um círculo perfeito de mais de cinco metros de diâmetro. Antes que Zé e Chico pudessem contemplar a perfeição geométrica, a tarrafa voltou para a margem, tão abarrotada que a caixa dos rapazes caberia nela umas três vezes. Ele selecionou os melhores e devolveu os menores, como um professor corrigindo uma prova fácil.
Humilhados e agradecidos, os "profissionais" ainda tiveram a petulância de perguntar:
— E essa linha aí, o que tem nela? Quantos peixes já pegou?
— Ah! A isca é um coração de boi! Ainda não peguei nada hoje, mas isso é normal. Às vezes não pego nada, mas no dia seguinte pego dois ou três… Vocês, naturalmente, sabem o que estou pescando?
“Sim”, responderam em uníssono, entreolhando-se, numa perfeita cumplicidade que, por sí, denunciava o grau de ignorância de ambos. Sabiam, coisa nenhuma!
— O que vamos fazer com tanto peixe — Perguntou Zé, já a caminho do carro.
— Quem sabe, pra começar, mentir…
— Pô Chico, você sabe: mentir não é a minha praia, principalmente sobre pescaria, até porque nunca precisei — protestou Zé Alves, o mentiroso compulsivo que agora se fazia de santo.
— Tá bom, Chico Silva. Uma mentirinha inocente, como se tivéssemos fisgado todos esses peixes, não fará mal algum!
E assim, Zé e Chico, os pescadores que saíram de casa para pegar peixe, mas voltaram com uma tarrafada de humildade e uma caixa de filantropia, selaram o pacto:
— Vamos separar uma meia dúzia, dos maiores, para nós e doar o resto. Tomara que a gente acerte ootro dia de pescar e encontre o Senhorzinho de novo, prá complementar nossa pescaria…
Dizem as más línguas que, até hoje, Zé e Chico relembram o feito e, às vezes, numa auto hipnose coletiva, até sugerem não ter acontecido o fato, uma vez que nunca mais (ou nunca mesmo) viram o tal velho. Acrescentam, as mesmas benditas línguas, que os amigos nunca mais falaram sobre o que pescava o tal senhorzinho. No auge de suas soberbas, não admitem, nem entre si, sua ignorância sobre o assunto.
Este conto é fruto da imaginação dos autores, mas fortemente ligado a um fato pitoresco
e também a fatos comuns em face a abundância de peixes, que transpunham a extinta
Cachoeira de Teotônio, sobremaneira nas secas do Rio Madeira. Os três
protagonistas estiveram no fato e os dois rapazes, com certeza,
se identificarão de imediato ante uma simples leitura.
Ilustrração:
Imagem gerada com ajuda do Gemini:
Fundo Musical:
Poema "Teotônio", musicado dom ajuda do Juno
Glossário:
Panema:
Em linguagem simples, panema significa má sorte, azar ou baixo astral. A palavra, que tem origem tupi, é usada principalmente na região amazônica para descrever uma situação ou pessoa que não tem sucesso em suas atividades.
Um pescador que volta para casa sem nenhum peixe está com panema.
Uma pessoa que está desanimada ou para quem nada dá certo está com panema.
Uma pessoa que é vista como azarada ou que atrai pouca sorte é chamada de panema.
Peixes gigantes do Rio Madeira:
O Rio Madeira é conhecido por abrigar alguns dos maiores e mais impressionantes peixes de água doce do planeta:
1. Pirarucu (Arapaima gigas), considerado o maior peixe de escamas das Américas e um dos maiores de água doce do mundo. Pode ultrapassar 3 metros de comprimento e mais de 200 kg de peso
2. Piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), um dos maiores peixes de couro (bagres) da Amazônia, predador voraz e um sonho para os pescadores esportivos. Pode atingir mais de 3,6 metros e pesar até 200 kg.
3. Jaú (Zungaro zungaro), um peixe de couro robusto e forte, amplamente distribuído na bacia amazônica e presente no Madeira. Normalmente pode chegar a 1,5 metro de comprimento e pesar até 70 kg.
4. Pirarara (Phractocephalus hemioliopterus) Facilmente reconhecida por suas cores vibrantes e cabeça grande, é um dos peixes mais bonitos e fortes do rio. Pode atingir facilmente 1 metro e pesar até 60 kg.
Dados Autorais:
Miniconto: Panema
Projeto: MiniContos-4 Mãos-20250710-ChMa
Período de Criação: entre 10/07/2025 e 28/08/2025.
Coautores: Chico Chagoso e JCMarini.
Autorização de Publicação e Direitos:
Os coautores se autorizam mutuamente a publicarem em qualquer mídia desde que os créditos sejam mantidos e a integridade do conto, imaculada. Também renunciam qualquer espécie de remuneração que, individual ou coletivamente, o outro venham auferir, em função de royalties ou direitos autorais.