Minicrônica por Magno Guedes Barreto¹
O álcool é um otimista incorrigível. Acredita nas amizades recém-nascidas, aprova amores repentinos e desconfia de pouquíssimas ideias, especialmente depois do segundo copo. Onde chega, instala uma espécie de coragem provisória.
Com ele, o sorriso se alarga, o amor se declara sem cerimônia e até quem jurava ir embora cedo passa a negociar com a madrugada. A exaltação ajuda e atrapalha com a mesma competência, o que talvez explique sua longa carreira entre nós.
As festas melhoram, o carnaval então nem se fala; transforma-se numa breve teoria da felicidade imediata. Brotam confraternizações imprevistas e intimidades que, em plena sobriedade, provavelmente ficariam apenas no campo das boas intenções.
No meu caso, foram tantos porres que já poderiam compor uma pequena memória. Há os inesquecíveis, os que tento esquecer e os inomináveis, protegidos por um acordo tácito entre a memória e a vergonha. E o meu fígado, coitado, já enfrentou batalhas memoráveis. Hoje vive em relativa paz, embora ainda seja convocado, vez ou outra, para escaramuças cuidadosamente irresponsáveis.
Amizades se consolidam em abraços demorados e outras se desfazem por motivos que amanhecem sem explicação. Certas verdades só criam coragem depois de alguns goles; certos arrependimentos acordam antes do próprio dono.
O curioso é que o álcool não transforma ninguém. No máximo, encurta o caminho entre o impulso e o gesto e nos livra, por algumas horas, do esforço de parecermos sensatos.
No fim, não é ele que fala demais.
Somos nós, menos vigilantes, menos editados, perigosamente sinceros.
E talvez seja exatamente por isso que continuamos brindando.
¹ Magno Guedes Barreto:
Ilustração:
Fragmento de imagem de chico Chagoso com auxílio da IA do ChatGPT
Fundo Musical:
Musica Neurônios Hepáticos (poema de Chico Chagoso musicado com ajuda da IA do Juno)