Recanto do Chagoso
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Há 35 Anos - Foi o Poeta - Ficou o Soneto

Crônica

 

     A manhã de 29 de abril de 1991 nasceu com um peso diferente. Eu, na lentidão de quem ainda tentava curar a ressaca do fim-de-semana, tentava entender a imagem que transluzia o vitrô da sala de curso. Lá fora, solitária e altaneira, uma rosa se equilibrava no topo de seu arbusto. Não era apenas uma flor: parecia uma estrela no topo de uma Árvore de  Natal, por mais extemporâneo que estivesse sendo. Seu vermelho vivo pulsava contra o cinza do dia.

 

     Chamei Jorge Edson. Meu colega de lida e de curso aproximou-se, mas não houve a euforia comum dos entusiastas. Ele olhou a flor e um silêncio reverente se instalou. Jorge inclinou levemente a cabeça para a direita, e com um olhar perdido a meio caminho do chão apontou para cima com a mão balançando suavemente, como se atribuísse aquilo a algo celestial.  "Ela está querendo nos dizer alguma coisa", murmurou. E havia, de fato, uma mensagem suspensa no ar úmido daquela manhã de segunda-feira.

 

     O relógio devia marcar em torno das sete e meia. Não tenho a precisão exata do ponteiro, mas era aquele momento em que a manhã ainda hesita em começar. Movido por um impulso que eu ainda não sabia nomear, peguei minha Cannon. O clique da câmera selou aquele instante.

 

     Duas ou três horas depois, já no intervalo para um lanche, a notícia na TV chocava o Brasil. O locutor confirmava o que a rosa já parecia ter insinuado saber: naquela mesma faixa de tempo, a quilômetros dali, na rodovia paranaense, Luiz Gonzaga Jr, o Gonzaguinha, encerrava sua passagem entre nós, em um impacto seco e definitivo de num acidente de carro que ocorrera justamente naquela aurora, por volta das sete e meia...

     O choque da notícia percorreu a sala, atingindo a todos, mas meu primeiro reflexo foi buscar Jorge. Quando nossos olhares se cruzaram no meio da multidão atônita, mais uma vez não houve eloquência nas palavras. Ele apenas repetiu o gesto — a inclinação da cabeça, o movimento do dedo — confirmando que a rosa já sabia de tudo antes de nós. Para nós dois, ou pelo menos para mim, havia algo a mais para recrudescer a comoção: Nós fôramos "avisados". 

 

     Ainda naquela manhã, durante o restante da aula, totalmente prejudicada pelo abalo da notícia,  escrevi alguns versos que mais tarde viriam a baila e, como  em "Vou-me embora pra Passárgada" de Manuel Bandeira, aqueles versos, maturados no tempo por duas décadas, para entender a tragédia do dia, insurgiram em forma de soneto Era a profusão, onde o poema não é escrito, ele insurge, e não apenas da mente do autor, mais da mente coletiva. Então apenas dei-lhe o título: "Súplica Nordestina - Gonzaginha", Era setembro de 2011.

     

     A foto que estancou o momento ilustra a publicação original do soneto, de 2011. Ela também ilustra esta crônica por estar intrinsecamente ligada ao fato originário. Ao eterno Gonzaguinha, minha homenagem póstuma, 35 anos depois, vai em forma do munduri "Gonzaguinha"

 

 

Súplica Nordestina - Gonzaguinha

Soneto por Chico Chagoso. 

Em meio ao rigor do insano embate

tremula a mão ao apontar a rosa,

tão silenciosa quanto escarlate,

em pétalas gradientes de rima e prosa.

 

Transposto o topo dos altivos ramos

a orvalhada flor, gotejante e pura,

se apresenta tênue, tenra e sana.

Prepara o ambiente à verdade dura.

 

Irrompem as pétalas no mais puro olor,

matizando a luz, oh benigno hifema,

em sonoros versos de alegria e dor.

 

Urge a tragédia, sua estratagema,

de solene inércia e bravio torpor:

levado o poeta. Legado o poema!

 

Original - Publicado no Recanto das Letras em Setembro de 2011 

https://www.recantodasletras.com.br/homenagens/3197304

 

 

 

 

Gonzaguinha

Munduri por Chico Chagoso

 

Eis que mal amanheceu!

E esta rosa nos diz:

O Brasil enluteceu!

 

Foi-se o "eterno aprendiz"

 

Veja: quem sempre nos deu

motivo para ser feliz,

O Brasil enluteceu!

 

                                                                   Gonzaguinha faleceu ao amanhecer do dia 29 de abril de 1991, aos 45 anos, em um acidente automobilístico

                                                                               na PR-280, entre Renascença e Marmeleiro, no Paraná. Ele voltava de um show em Pato Branco e seguia para Foz do Iguaçu para pegar um voo para outro compromisso em Florianópolis

 

 

 


Ilustração:

Imagem do acervo do autor, retratando o momento do amanhecer de 19 de abril de 1991, às instalações do Cesec Santa Genoveva, órgão extinto, do Banco do Brasil, em Goiânia, GO

 

Fundo Musical:
Munduri "Gonzaginha", musicado com ajuda do Suno.

Chico Chagoso
Enviado por Chico Chagoso em 29/04/2026
Alterado em 06/05/2026
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