Miniconto
— Não faltava nada lá em casa, mas tudo era regrado... muito bem regrado. "Não coma com os olhos! Ponha no prato apenas o que pode comer!", "Não é pão na manteiga, não! Viu?! E é só em uma banda...". Era assim. Roupa, uma por ano, no Natal. Sapato, apenas um, que depois era passado para o irmão mais novo quando já não servia mais no pé do mais velho. — Era João Pedro contando para a namorada suas reminiscências enquanto passava as compras no caixa do supermercado.
Marisa, por sua vez, apenas ouvia, sem comentar a conversa que até lhe parecia inofensiva ou sem propósito, e que continuou no carro a caminho da casa de João Pedro.
— Vou chegar em casa com estas compras... aí, vou aprontar com a "véia"! Vou pegar um copo de café, colocar cinco colheres de leite em pó, abrir um pão e passar meia lata de manteiga... ah, se vou...
O sorriso inicial com que Marisa ouvia as lembranças do rapaz logo se transformou em um riso aberto diante da audácia dos planos dele. Apesar disso, ainda não acreditava muito que o plano se concretizasse.
Logo que chegaram, João Pedro foi direto para a cozinha, onde preparou o lanche exagerado diante da mãe, que observava tudo em silêncio. Mesa posta, pratos servidos... Antes que ele desse a primeira mordida, um estalo seco ecoou pela casa, seguido do falar manso da velha mãe.
— Pode ser o que for, pode ter o salário que tiver, aqui você é meu filho e me deve respeito... — disse a mãe, fitando os estilhaços do venerável galho de goiabeira, relíquia da árvore do quintal que, de tão seco e antigo, esfarelou-se ao primeiro contato com as costas do malcriado, produzindo, contudo, o exato e infalível efeito moral de sempre.
Agora o riso que tinha sido sorriso virou gargalhada: Marisa não se conteve...
Ilustração:
Imagem gerado com ajuda da IA do Gemini
Fundo Musical:
Mãe é Mãe - Letra do autor musicada com ajuda do Suno